
Há vozes que representam uma tradição. E há aquelas que conseguem fazer uma tradição viajar. Mariza, nome artístico de Marisa dos Reis Nunes, pertence à segunda categoria. Nascida em 16 de dezembro de 1973, em Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, filha de pai português e mãe moçambicana, mudou-se ainda criança para Portugal e cresceu na Mouraria, em Lisboa, um dos bairros historicamente associados ao fado.
Sua história com o fado começou muito cedo. A música fazia parte do cotidiano familiar e das sessões de fado promovidas pelo pai em uma pequena taberna na Mouraria. Mariza conta que o fado também foi uma forma de aproximação com o bairro e de integração de uma família que carregava experiências culturais diferentes. Ela começou a cantar ainda criança e, posteriormente, passou por casas de fado de Lisboa.
Na adolescência, chegou a se afastar do canto, mas nunca deixou de conviver com o universo do fado. A retomada profissional aconteceria alguns anos depois, especialmente na casa Sr. Vinho, na Lapa, espaço ligado à fadista Maria da Fé.
O encontro com Amália e o nascimento de uma carreira
Um dos momentos decisivos veio em 1999, quando Mariza foi convidada por Filipe La Féria para participar de um espetáculo em homenagem a Amália Rodrigues, realizado no Coliseu de Lisboa e posteriormente no Coliseu do Porto. A apresentação colocou sua voz diante de um público muito maior e ajudou a abrir o caminho para a carreira profissional que viria a seguir.
Dois anos depois, em 2001, chegou o álbum de estreia, Fado em Mim.
O disco inicialmente tinha uma dimensão muito mais modesta, mas acabou ganhando distribuição internacional e sendo lançado em dezenas de países. O repertório reunia clássicos associados a Amália, como "Barco Negro", "Chuva" e "Oiça Lá Ó Senhor Vinho", ao lado de "Ó Gente da Minha Terra", de Tiago Machado, que se transformaria em uma das marcas da carreira de Mariza.
O impacto foi imediato. A cantora passou a se apresentar em eventos e espaços internacionais importantes, incluindo o Festival de Verão de Québec, o Central Park, em Nova York, o Hollywood Bowl, em Los Angeles, o Royal Festival Hall, em Londres, e o circuito WOMAD. O reconhecimento veio também da BBC Radio 3, que lhe concedeu o prêmio de Melhor Artista Europeu na área de World Music.

Uma discografia entre tradição e renovação
A carreira fonográfica de Mariza foi construída sem abandonar o fado, mas também sem tratá-lo como uma linguagem imóvel.
Depois de Fado em Mim, veio Fado Curvo, em 2003, trabalho que ampliou sua identidade artística e chegou ao sexto lugar da parada de World Music da Billboard. O álbum também recebeu o Deutsche Schallplattenpreis e o European Border Breakers Award.
Em 2005, Mariza lançou Transparente, álbum que aprofundou sua maturidade interpretativa e recebeu quatro discos de platina. Um ano depois, o registro Concerto em Lisboa, gravado com a Sinfonietta de Lisboa sob direção de Jaques Morelenbaum, transformou-se em um importante marco de sua trajetória.
A sequência inclui:
- 2001Fado em Mim
- 2003Fado Curvo
- 2005Transparente
- 2006Concerto em Lisboa
- 2008Terra
- 2010Fado Tradicional
- 2014Best Of
- 2015Mundo
- 2018Mariza
- 2020Mariza Canta Amália
Do fado português para o mundo
A internacionalização não significou o abandono de suas raízes. Pelo contrário: Mariza transformou sua identidade portuguesa em ponto de partida para estabelecer diálogos com diferentes culturas.
Ao longo da carreira, trabalhou ou dividiu palco com artistas como Gilberto Gil, Ivan Lins, Sting, Lenny Kravitz, Cesária Évora, Tito Paris, Carlos do Carmo, Miguel Poveda e Jaques Morelenbaum. Seu repertório também passou a incorporar elementos das mornas cabo-verdianas, do rhythm and blues e de outras linguagens musicais.
Entre os palcos internacionais que receberam a cantora estão o Carnegie Hall, em Nova York, o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, a Sydney Opera House, o Royal Albert Hall, em Londres, e o Olympia, em Paris.
Em 2007, Mariza também participou do filme Fados, do cineasta espanhol Carlos Saura, ampliando sua presença para além dos circuitos musicais.
Terra, Mundo e uma identidade cada vez mais internacional
Em Terra, lançado em 2008, a artista aprofundou essa abertura. Produzido sob direção musical de Javier Limón, o álbum reuniu parceiros como Tito Paris, Concha Buika, Ivan Lins e Dominic Miller.
Em 2015, Mundo chegou ao primeiro lugar das vendas em Portugal e recebeu dupla platina. O álbum trouxe "Melhor de Mim", uma das canções mais conhecidas de sua trajetória.
Já o álbum Mariza, de 2018, permaneceu nove semanas no primeiro lugar das vendas em Portugal. O trabalho recebeu disco de platina e foi considerado pela revista Songlines o melhor álbum europeu do ano, além de ter sido indicado ao Grammy Latino. A turnê internacional que se seguiu reuniu cerca de 150 apresentações e percorreu aproximadamente 200 mil quilômetros.
Mariza Canta Amália: diálogo entre duas gerações
Em 2020, Mariza voltou diretamente às raízes com Mariza Canta Amália, projeto dedicado integralmente ao repertório de Amália Rodrigues.
Produzido novamente por Jaques Morelenbaum, o álbum revisita canções como "Gaivota", "Estranha Forma de Vida", "Com Que Voz", "Fado Português", "Povo Que Lavas no Rio" e "Foi Deus". O trabalho foi gravado entre Lisboa e Rio de Janeiro e representa mais do que uma homenagem: é o encontro entre duas gerações fundamentais do fado.
Mariza, entretanto, nunca buscou ocupar o lugar de Amália. Sua trajetória foi construída justamente a partir da afirmação de uma identidade própria.
Mariza e o Brasil
O Brasil ocupa um espaço especial nessa história.
A relação começa ainda no ambiente familiar. O pai de Mariza viveu no Brasil nos anos 1960, e a própria cantora já declarou em entrevista que seu nome artístico foi inspirado na cantora brasileira Marisa Gata Mansa. Ela também viveu uma experiência profissional no país quando jovem, trabalhando durante alguns meses em um cruzeiro pela costa brasileira.
A ligação com a música brasileira também aparece em sua obra através de encontros com nomes como Ivan Lins e Gilberto Gil, além da produção de Jaques Morelenbaum.
Em abril de 2024, Mariza voltou ao Brasil para uma turnê que passou por São Paulo, Ilhabela, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília e Olinda. Em Porto Alegre, apresentou-se no Teatro do Bourbon Country, em 25 de abril.
Na ocasião, a própria cantora resumiu a relação com o país de maneira bastante direta: "Na minha agenda, o Brasil está em primeiro lugar", destacando sua ligação com a cultura brasileira e com a MPB.
Os projetos atuais
A trajetória de Mariza entrou em uma nova etapa em 2026. A artista anunciou o lançamento de um novo álbum, Amor, previsto para o último trimestre do ano, acompanhado de uma nova turnê mundial com apresentações programadas em cerca de 35 países.
O novo ciclo inclui importantes apresentações internacionais. Em janeiro, Mariza passou pela França, incluindo o histórico Olympia de Paris. Ao longo do ano, a agenda internacional prevê apresentações em diferentes países da Europa e também nos Estados Unidos e Reino Unido.
Outro projeto de destaque em 2026 foi a retomada de Concerto em Lisboa, 25 anos depois do espetáculo que marcou sua carreira. Em julho, Mariza se apresentou na Ribeira de Gaia acompanhada pela Orquestra Sinfonietta do Porto, sob direção de Jaques Morelenbaum, recuperando a dimensão sinfônica daquele trabalho histórico.
Em maio, a fadista também foi atração da Festa do Emigrante, no Coliseu Micaelense, nos Açores, reforçando sua relação com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
Uma voz que atravessou fronteiras
A trajetória de Mariza é, em muitos sentidos, uma história sobre deslocamento.
Ela nasceu na África, cresceu em Lisboa, encontrou no fado uma forma de pertencimento e transformou uma tradição profundamente portuguesa em uma linguagem capaz de dialogar com públicos de diferentes continentes.
Sua música carrega a Mouraria, Moçambique, Portugal, África, Brasil e o mundo. E talvez seja justamente essa combinação que explique a dimensão de sua carreira.
Mariza não levou apenas o fado para outros países. Levou consigo uma ideia de Portugal construída a partir da memória, da diversidade e da capacidade de dialogar com o mundo.
Mais de duas décadas depois de Fado em Mim, a voz continua em movimento. Agora, com Amor, uma nova turnê internacional e projetos que revisitam momentos fundamentais de sua trajetória, Mariza reafirma uma posição rara na música contemporânea: a de uma artista que consegue preservar uma tradição sem deixar de reinventá-la.
Do bairro da Mouraria aos grandes palcos internacionais, o fado encontrou em Mariza uma de suas mais importantes vozes do século XXI.
Mariza em destaque
- Nome
- Marisa dos Reis Nunes
- Nome artístico
- Mariza
- Nascimento
- 16 de dezembro de 1973
- Local
- Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique
- Gênero
- Fado / World Music
- Primeiro álbum
- Fado em Mim (2001)
- Álbum mais recente anunciado
- Amor (2026)
- Carreira
- mais de duas décadas
- Atuação internacional
- Europa, Américas, África, Ásia e Oceania
- Destaques
- Carnegie Hall, Sydney Opera House, Royal Albert Hall, Walt Disney Concert Hall, Olympia e outros grandes palcos internacionais
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