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Pôster Black Rio, o baile que transformou o Brasil: colagem de bailes, Canecão, metais e capas de disco

Antes de existir a Banda Black Rio, existia o baile.

E antes de o nome Black Rio ganhar as páginas dos jornais, milhares de jovens negros já haviam transformado clubes, quadras e ginásios dos subúrbios do Rio de Janeiro em territórios de música, dança, estilo, sociabilidade e afirmação.

O que começou como uma paixão pelo soul e pelo funk norte-americanos tornou-se, durante os anos 1970, um dos mais importantes movimentos culturais da juventude negra brasileira. Em plena ditadura militar, os bailes criaram espaços de pertencimento e ajudaram a colocar a identidade negra no centro de uma cena cultural que até então permanecia pouco visível para a imprensa e para as elites culturais. Pesquisas recentes sobre o período mostram, inclusive, que o movimento foi acompanhado e perseguido pelos órgãos de repressão do regime.

A história da Black Rio, portanto, não é apenas uma história sobre música. É uma história sobre cidade, juventude, tecnologia, dança, identidade e resistência cultural.

Antes da Black Rio, o Canecão

Um dos capítulos fundamentais dessa história aconteceu na Zona Sul.

Em 12 de julho de 1970, o radialista Big Boy e o discotecário Ademir Lemos realizaram no Canecão, em Botafogo, o primeiro Baile da Pesada. Cerca de cinco mil pessoas compareceram à noite que colocava no mesmo espaço nomes como James Brown, Marvin Gaye e Stevie Wonder.

O evento foi decisivo para a formação da cultura dos bailes de soul no Rio.

Big Boy já era um importante divulgador da música negra norte-americana pelo rádio. Ademir Lemos, por sua vez, trazia para a pista uma seleção que transitava pelo rock, pop e, cada vez mais, pelo soul e pelo funk.

O Canecão representava naquele momento uma nova possibilidade: o DJ como protagonista do espetáculo e o sistema de som como instrumento central da experiência musical.

Mas aquela história logo mudaria de endereço.

Com a elitização do Canecão, o Baile da Pesada foi transferido para os subúrbios, passando por diferentes clubes e ginásios. E foi justamente longe da Zona Sul que a cultura dos bailes encontrou seu público mais intenso.

Os subúrbios inventam sua própria cena

A partir daí surgiram dezenas, posteriormente centenas, de equipes de som.

Eram estruturas comandadas por DJs, produtores e empreendedores que compravam discos importados, montavam sistemas de som cada vez mais potentes, organizavam festas e criavam uma estética própria.

Entre essas equipes estavam Black Power, Soul Grand Prix, Cash Box, Dynamic Soul, Jet Black e muitas outras. Pesquisas apontam a existência de mais de 300 equipes ligadas à cena dos bailes cariocas.

Nesse universo, os DJs deixaram de ser apenas selecionadores de discos.

Eles passaram a ser curadores, comunicadores, produtores culturais e formadores de público.

A pista era também uma escola.

Ali se aprendia quem era James Brown, quem era Isaac Hayes, quem era Aretha Franklin, quem eram os músicos africanos e afro-americanos que começavam a aparecer nas coleções dos DJs.

A cultura negra internacional chegava ao Rio em discos, revistas, filmes, fotografias, roupas, penteados e passos de dança.

E os jovens cariocas transformavam tudo isso em uma linguagem própria.

Dom Filó e a Soul Grand Prix

Entre os personagens fundamentais dessa história está Asfilófio de Oliveira Filho, o Dom Filó.

DJ, produtor cultural e articulador da cena negra carioca, Filó esteve ligado ao Renascença Clube, espaço fundamental para a cultura negra do Rio, e posteriormente criou a Soul Grand Prix, uma das equipes de som mais importantes do movimento.

O nome Soul Grand Prix já revelava uma estratégia.

O slogan era "Soul em alta velocidade".

Nos bailes, além da música, eram projetadas imagens de artistas e personalidades negras. Fotografias de Duke Ellington, Dizzy Gillespie e outros ícones da cultura negra apareciam nas paredes, criando uma espécie de aula audiovisual de história e cultura negra.

Para ampliar o público e circular em clubes diferentes, Dom Filó também incorporou imagens de automobilismo às projeções. Era uma forma inteligente de manter a mensagem de afirmação racial dentro de um espetáculo que pudesse atravessar diferentes públicos.

O baile era diversão.

Mas também era informação.

E, principalmente, era representação.

Capa retrô Black Rio: oito músicos em círculo vistos de cima, anéis laranja ao redor
Black Rio: funk, samba, jazz, Brasil.

Black Rio em plena ditadura

É impossível compreender a dimensão do movimento sem lembrar o contexto político.

O Brasil vivia sob a ditadura militar, e manifestações de organização negra eram observadas com desconfiança pelos órgãos de repressão.

O problema para o regime não era simplesmente o que estava sendo tocado.

Era o que aquelas pessoas estavam começando a representar.

Milhares de jovens negros reunidos, ocupando espaços públicos e privados, usando cabelos black power, roupas próprias, criando redes de sociabilidade e consumindo uma cultura negra internacional.

O fenômeno chamou a atenção da imprensa e também dos órgãos de segurança.

O caso de Dom Filó é emblemático. Em 1976, ele foi detido após sair de um baile e levado encapuzado para interrogatório. Pesquisas acadêmicas e documentos posteriores relacionam a repressão aos receios do regime diante da possibilidade de organização política e racial.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de História destaca que o movimento sofreu perseguição dos órgãos de repressão e que os bailes contribuíram para difundir um discurso de afirmação da negritude conectado à rede transnacional da diáspora africana.

O baile, portanto, podia parecer apenas festa.

Mas, naquele contexto, dançar também era ocupar espaço.

O nome Black Rio

O nome que passou a identificar esse fenômeno ganhou força em 1976, quando a jornalista Lena Frias publicou no Jornal do Brasil a reportagem "Black Rio: o orgulho (importado) de ser negro no Brasil".

Publicada em 17 de julho daquele ano, a reportagem documentava os bailes dos subúrbios e a enorme quantidade de jovens que participavam daquele circuito. O trabalho de Frias, acompanhado pelas fotografias de Almir Veiga, ajudou a transformar uma cena até então pouco visível em fenômeno nacional.

O curioso é que o nome criado pela imprensa acabou sendo apropriado pela própria cultura que pretendia descrever.

Black Rio passou a ser identidade.

E logo também seria o nome de uma banda.

Oberdan Magalhães e a Banda Black Rio

É nesse ponto que a história dos bailes encontra a história da música instrumental brasileira.

O saxofonista Oberdan Magalhães já vinha de uma trajetória extremamente rica.

Participara de grupos como Impacto 8, Cry Babies e Abolição, banda criada por Dom Salvador. Esses trabalhos aproximaram Oberdan de músicos que posteriormente formariam a Black Rio.

Entre eles estavam nomes como:

  • Oberdan Magalhães, saxofones
  • Cláudio Stevenson, guitarra
  • Barrosinho, trompete
  • Lúcio Trombone, trombone
  • Jamil Joanes, baixo
  • Cristóvão Bastos, teclados
  • Luiz Carlos Batera, bateria e percussão

Essa formação reuniu músicos vindos da experiência de bandas de baile, samba, jazz e soul.

A proposta era ousada: criar uma música instrumental brasileira capaz de conversar com o funk e o soul norte-americanos sem deixar de ser brasileira.

Foi daí que surgiu uma das mais importantes fusões da música brasileira.

Maria Fumaça: o disco que mudou o jogo

Em 1977, a Banda Black Rio lançou seu primeiro álbum: Maria Fumaça.

O disco apresentava uma sonoridade que misturava soul, funk, samba, jazz, choro, baião e gafieira.

O resultado não era simplesmente uma versão brasileira do funk americano.

Era uma nova linguagem.

A faixa "Maria Fumaça", composta por Oberdan Magalhães e Luiz Carlos Batera, tornou-se o cartão de visitas da banda e chegou à televisão como parte da trilha da novela Locomotivas, da Rede Globo.

O álbum também trouxe releituras de "Na Baixa do Sapateiro", de Ary Barroso, "Casa Forte", de Edu Lobo, "Baião", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e "Urubu Malandro".

Era uma declaração estética: a música negra brasileira poderia dançar, improvisar e soar moderna sem abandonar suas raízes.

Cláudio Stevenson: a guitarra no centro do groove

Dentro desse projeto, Cláudio Stevenson teve um papel fundamental.

Guitarrista, compositor e arranjador, Stevenson estava na formação original da Banda Black Rio e participou dos três primeiros discos.

Sua guitarra ajudava a construir a ponte entre o funk, o samba-jazz e a música instrumental brasileira.

Ele também assinou, ao lado de Cristóvão Bastos, "Metalúrgica", de Maria Fumaça, e com Barrosinho, "Gafieira Universal" e "Ibeijada". Mais tarde, "Subindo o Morro", de sua autoria, apareceria em Saci Pererê.

Stevenson teve ainda uma trajetória importante ao lado de artistas como Gal Costa, Hyldon, Caetano Veloso, Tim Maia e Gonzaguinha. Em 1978, participou da temporada de Caetano Veloso e Banda Black Rio no Teatro Carlos Gomes, experiência posteriormente registrada em Bicho Baile Show.

Sua morte precoce, em 1987, aos 31 anos, interrompeu uma carreira que ainda tinha muito a oferecer.

Gafieira Universal: o Brasil responde ao funk

Em 1978 veio o segundo álbum: Gafieira Universal.

O título já era uma síntese do projeto.

A banda não queria apenas reproduzir o soul americano.

Queria colocá-lo para conversar com a gafieira, o samba e a tradição instrumental brasileira.

A faixa-título, assinada por Barrosinho e Cláudio Stevenson, é um dos exemplos mais claros dessa proposta. O álbum também trouxe "Vidigal", "Rio de Fevereiro", "Expresso Madureira" e uma releitura de "Cravo e Canela", de Milton Nascimento.

A formação reunia ainda instrumentos como Fender Rhodes, clavinet, Hammond, sintetizadores, cuíca, pandeiro e percussão, mostrando que o som da banda estava cada vez mais sofisticado.

A banda no Canecão e nos grandes palcos

A história da Black Rio também passou pelos grandes palcos que ajudaram a conectar o circuito dos bailes à indústria cultural.

A banda participou de apresentações ao lado de artistas como Caetano Veloso e esteve ligada a projetos que levaram aquela sonoridade para públicos além dos clubes suburbanos.

O encontro com Caetano foi particularmente importante.

A temporada de Bicho Baile Show, em 1978, no Teatro Carlos Gomes, reuniu o repertório de Caetano com a sonoridade da Black Rio. O registro só seria lançado em CD posteriormente, na caixa Todo Caetano, em 2002.

A Black Rio também participou de gravações e projetos de artistas como Tim Maia, Raul Seixas, Carlos Dafé e outros nomes da música brasileira.

A ponte estava construída: do baile para o disco; do disco para a televisão; da periferia para os grandes palcos.

Saci Pererê e o fim de uma primeira era

Em 1980, veio o terceiro álbum: Saci Pererê.

O trabalho marcou a última fase da formação original da banda.

A sonoridade continuava avançando em direção a uma combinação de instrumental, funk, samba, jazz e canção. O álbum contou com mudanças na formação e incorporou vocalistas, revelando também a pressão do mercado por uma banda menos exclusivamente instrumental.

Poucos anos depois, uma tragédia encerraria aquela primeira fase.

Em 9 de janeiro de 1984, Oberdan Magalhães morreu em um acidente de carro no Rio de Janeiro.

A Banda Black Rio deixou de existir naquele momento.

Mas seu som estava apenas começando a viajar.

O som que o Brasil demorou a reconhecer

Uma das ironias da história da Black Rio é que seu reconhecimento internacional demorou menos do que seu reconhecimento dentro do próprio Brasil.

Nos anos 1990, seus discos passaram a ser redescobertos por DJs e colecionadores europeus ligados ao movimento rare groove.

O selo britânico Far Out Recordings teve papel importante nessa redescoberta, levando os discos da banda para DJs como Gilles Peterson e Norman Jay. Posteriormente, artistas como Mos Def e Incognito gravaram músicas da Black Rio, ampliando novamente sua circulação internacional.

O que havia sido criado para fazer dançar a juventude negra do Rio passou a ser descoberto em pistas de Londres, Paris e outras cidades.

O groove tinha atravessado o Atlântico.

Da Black Rio ao acid jazz

A influência da banda tornou-se particularmente importante na cena internacional de acid jazz, broken beat, rare groove e jazz-funk.

A combinação entre metais, bateria pesada, baixo sincopado, guitarra, teclados e percussão brasileira oferecia algo que os DJs europeus procuravam: um groove brasileiro sofisticado e dançante que não soava como cópia do funk americano.

Foi justamente essa singularidade que ajudou a transformar Maria Fumaça e Gafieira Universal em discos cultuados internacionalmente.

A própria Banda Black Rio identifica entre seus admiradores e referências nomes como Jamiroquai, Mos Def e Incognito, além de artistas ligados à cena londrina de acid jazz.

Uma segunda geração

A história não terminou com Oberdan.

No final dos anos 1990, seu filho William Magalhães retomou a Banda Black Rio com uma nova formação.

O álbum Movimento, de 2001, ganhou lançamento internacional como Rebirth, pelo selo britânico Mr. Bongo. A nova fase levou o grupo novamente para palcos brasileiros e europeus.

Em 2011 veio Super Nova Samba Funk, lançado internacionalmente pela Far Out Recordings.

O projeto atualizava a linguagem original e aproximava o som da banda de hip-hop, soul, funk, samba e música eletrônica, com participações de nomes como Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso e artistas ligados ao hip-hop de Nova York.

Em 2019, veio ainda O Som das Américas, reafirmando a continuidade da proposta.

Mais do que uma banda

Talvez o maior equívoco seja contar a história da Black Rio apenas como a história de uma banda.

A Banda Black Rio nasceu dentro de um movimento maior.

Esse movimento nasceu nos bailes.

Os bailes foram organizados pelas equipes de som.

As equipes foram conduzidas por DJs e produtores.

E tudo isso aconteceu dentro de uma juventude negra que estava procurando novas formas de ser vista, ouvir-se e afirmar sua identidade.

Por isso, nomes como Dom Filó, Big Boy, Ademir Lemos, Mister Paulão Black Power, Luizinho Disc Jockey Soul, entre tantos outros DJs e produtores, precisam aparecer nessa história ao lado de músicos como Oberdan Magalhães, Cláudio Stevenson, Barrosinho, Cristóvão Bastos e Jamil Joanes.

Foi uma rede.

E essa rede mudou a música brasileira.

Black Rio e a música global

O que aconteceu no Rio de Janeiro nos anos 1970 antecipou algo que hoje parece natural: a circulação global de gêneros, batidas, estilos e identidades.

Mas a Black Rio não apenas recebeu influência dos Estados Unidos.

Ela devolveu uma resposta brasileira ao mundo.

  • Pegou o soul.
  • Pegou o funk.
  • Pegou o jazz.

Passou tudo pela experiência do samba, da gafieira, do choro, do baião e da música instrumental brasileira.

E criou outra coisa.

É justamente essa capacidade de transformação que explica a permanência da Banda Black Rio no circuito internacional.

Seu som foi redescoberto por DJs europeus, incorporado por artistas de hip-hop e acid jazz e posteriormente levado novamente ao mundo por novas formações da própria banda.

O movimento que começou nos subúrbios cariocas acabou ajudando a construir uma ideia que hoje é central na música brasileira contemporânea: a música negra brasileira não é apenas parte da cultura nacional. Ela é também uma das forças que ajudam a definir o som do mundo.

Black Rio: um legado que continua dançando

Mais de cinquenta anos depois dos primeiros bailes, ainda é possível ouvir o eco daquela pista.

  • Está no funk carioca.
  • Está no hip-hop brasileiro.
  • Está no samba-funk.
  • Está no acid jazz.
  • Está nos DJs que continuam procurando vinis raros.
  • Está nos músicos que ainda descobrem Maria Fumaça.

Está nas novas gerações que reconhecem em Oberdan Magalhães e na Banda Black Rio não apenas grandes músicos, mas arquitetos de uma linguagem.

E está, sobretudo, na ideia de que dançar também pode ser uma forma de afirmar quem se é.

A Black Rio nasceu em um período em que o Brasil tentava silenciar diferenças.

A música fez o contrário.

Amplificou-as.

E o groove atravessou o mundo.

Discos essenciais para ouvir

  • Banda Black Rio, Maria Fumaça (1977)

    O ponto de partida. Instrumental, sofisticado e revolucionário na combinação de samba, funk, soul e jazz.

  • Banda Black Rio, Gafieira Universal (1978)

    Aprofunda a fusão brasileira e apresenta algumas das composições mais emblemáticas de Cláudio Stevenson e Barrosinho.

  • Banda Black Rio, Saci Pererê (1980)

    O último álbum da primeira fase, já apontando para novas possibilidades de formação e repertório.

  • Caetano Veloso & Banda Black Rio, Bicho Baile Show

    Registro histórico da colaboração entre Caetano e a banda, posteriormente lançado na caixa Todo Caetano.

  • Banda Black Rio, Movimento / Rebirth (2001/2002)

    O renascimento internacional da banda sob liderança de William Magalhães.

  • Banda Black Rio, Super Nova Samba Funk (2011)

    A tradição encontra hip-hop, soul, funk e novas linguagens.

  • Banda Black Rio, O Som das Américas (2019)

    Uma nova geração reafirmando a ideia de música negra brasileira sem fronteiras.

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