
Na noite de 7 de setembro de 2026, o Palco Mundo do Rock in Rio recebeu um artista que já não precisa provar absolutamente nada. Depois de encerrar, em 2023, a gigantesca turnê Farewell Yellow Brick Road, Elton John voltou ao Brasil para uma apresentação única, aceita como uma exceção à sua aposentadoria das grandes turnês. Foram cerca de 100 mil pessoas diante do palco, em uma noite construída sobre repertório, memória e reconhecimento.
E talvez seja justamente isso que explique a força de Elton John no Brasil. Quando as primeiras notas de "Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding", "Bennie and the Jets", "Tiny Dancer", "Rocket Man", "Candle in the Wind" ou "Your Song" começam a soar, não estamos apenas ouvindo músicas. Estamos reencontrando épocas, pessoas, filmes, novelas, discos, rádios, festas, viagens e momentos particulares da vida.
A música de Elton John funciona como uma espécie de arquivo afetivo.
De Reginald Dwight a Elton John
Elton John nasceu em 25 de março de 1947, em Pinner, Middlesex, Inglaterra, com o nome de Reginald Kenneth Dwight. A relação com a música começou praticamente junto com a infância. Aos três anos, já impressionava a família tocando piano de ouvido. Aos 11, recebeu uma bolsa para estudar na Royal Academy of Music, onde frequentou aulas durante quatro anos.
Mas sua formação não ficou presa à música clássica.
O jovem Reginald cresceu em uma Inglaterra que atravessava profundas transformações culturais. O pós-guerra produzia novas linguagens, o rádio aproximava jovens de músicas norte-americanas e o blues, o rhythm and blues, o soul e o rock começavam a romper fronteiras.
Foi nesse ambiente que Elton desenvolveu uma característica que se tornaria fundamental em sua carreira: a capacidade de juntar mundos aparentemente diferentes.
O piano clássico encontrou o blues. O gospel encontrou o rock. A tradição da canção britânica encontrou o pop norte-americano. Mais tarde, o glam rock acrescentaria o espetáculo visual, os figurinos e a teatralidade que fariam de Elton uma das figuras mais reconhecíveis da cultura pop dos anos 1970.
Bluesology, soul e a construção do músico
Antes de se tornar Elton John, Reg Dwight passou por bandas e pelo circuito profissional britânico.
Em meados dos anos 1960, integrou a Bluesology, grupo que acompanhava artistas norte-americanos de soul e R&B em turnês pela Inglaterra, entre eles Major Lance e Doris Troy. Em 1966, a banda passou a acompanhar Long John Baldry.
Essa experiência é importante para compreender Elton.
Antes do grande pop, houve o blues.
Antes do piano dos grandes estádios, houve clubes, bandas de apoio, repertório negro norte-americano e músicos trabalhando noite após noite. Elton não surgiu isoladamente: ele foi formado dentro de uma cadeia de influências musicais que atravessava Estados Unidos e Reino Unido.
Em 1967, um anúncio publicado na revista New Musical Express mudaria sua vida. O produtor Ray Williams recebeu as candidaturas de Reg Dwight e do jovem letrista Bernie Taupin. Percebeu que os dois possuíam talentos complementares e iniciou uma das parcerias mais importantes da história da música popular.
A fórmula era simples e extraordinária: Bernie escrevia as palavras. Elton transformava aquelas palavras em música.
Elton John e Bernie Taupin: uma das grandes parcerias da música
A parceria começou por correspondência e rapidamente se transformou em uma das relações criativas mais duradouras da música popular.
Em 1969, Elton lançou Empty Sky, seu primeiro álbum. No mesmo período nasceu uma composição que mudaria sua trajetória: "Your Song".
A canção apareceu no álbum Elton John, de 1970, e ajudou a apresentar ao mundo uma combinação que se tornaria sua assinatura: melodias extremamente acessíveis, harmonias sofisticadas, piano protagonista e letras de Bernie Taupin capazes de criar imagens íntimas e cinematográficas.
Em agosto de 1970, Elton fez sua estreia norte-americana no lendário Troubadour, em Los Angeles. A apresentação tornou-se um dos momentos decisivos da carreira e abriu caminho para a explosão internacional que viria nos anos seguintes.
A partir dali, Elton John deixou de ser apenas um excelente pianista e compositor britânico para se transformar em fenômeno global.
A explosão dos anos 1970
Poucos artistas conseguiram produzir uma sequência tão impressionante de discos em tão pouco tempo.
Entre os trabalhos fundamentais estão:
- 1970Elton John
- 1970Tumbleweed Connection
- 1971Madman Across the Water
- 1972Honky Château
- 1973Don't Shoot Me I'm Only the Piano Player
- 1973Goodbye Yellow Brick Road
- 1974Caribou
- 1975Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy
- 1976Blue Moves
A discografia oficial registra a velocidade impressionante daquela fase, com sucessivos lançamentos e enorme repercussão internacional.
E há um disco que se tornou praticamente uma instituição dentro da obra de Elton: Goodbye Yellow Brick Road.
Lançado em 1973, o álbum duplo reúne "Candle in the Wind", "Bennie and the Jets", "Saturday Night's Alright for Fighting", "Goodbye Yellow Brick Road" e outras composições que atravessaram décadas. O disco permaneceu mais de 100 semanas nas paradas britânica e norte-americana e chegou ao primeiro lugar da Billboard 200.
É também uma chave para compreender o Elton que chegou ao Rock in Rio.
A música de 2026 não precisou ser reinventada.
Ela já havia sobrevivido ao tempo.
O piano como protagonista
Existe algo particularmente importante na obra de Elton John: o piano nunca foi apenas acompanhamento.
O instrumento é personagem.
Elton toca o piano como um músico de formação clássica que aprendeu a liberar dentro dele o blues, o gospel, o rock, o soul e o pop. Seus famosos improvisos ao vivo transformaram o instrumento em extensão física da performance.
Por isso, mesmo em um festival gigantesco, existe uma imagem que permanece poderosa: Elton sentado diante do piano.
No Rock in Rio 2026, isso voltou a acontecer.
E quando chegou "Candle in the Wind", executada em formato solo, o espetáculo reduziu sua escala. Por alguns minutos, o gigantismo do festival deu lugar a uma relação direta entre cantor, piano e público.
Elton John e o Brasil: uma história muito anterior ao Rock in Rio
A relação de Elton John com o Brasil começou antes mesmo de seus grandes shows por aqui.
Em 1978, ele esteve no Rio de Janeiro para o Carnaval, acompanhado por Rod Stewart e Peter Frampton. Não houve apresentação pública naquela ocasião, mas o contato com a cidade deixou marcas. O próprio site oficial de Elton relata o fascínio do artista pelo ambiente carioca e pela música brasileira.
O primeiro grande capítulo profissional viria em 1995, durante a turnê Made in England.
Em 25 de novembro daquele ano, aproximadamente 40 mil pessoas foram ao Estádio do Flamengo, no Rio de Janeiro. O registro daquela apresentação ganhou importância histórica e voltou a ser exibido em versão remasterizada em 2026, justamente às vésperas do retorno do artista ao país.
A partir daí, a história se multiplicou.
Elton voltou ao Brasil em 2009, passou novamente pelo Rio em 2014 e realizou várias apresentações pelo país em diferentes turnês. Em 2011, estreou no Rock in Rio. Em 2015, retornou ao festival. Em 2017, fez sua última série de shows brasileiros antes da pausa nas grandes turnês.
Rock in Rio: 2011, 2015 e agora 2026
Elton John não é um visitante ocasional do Rock in Rio.
Sua relação com o festival começou em 23 de setembro de 2011, quando subiu pela primeira vez ao Palco Mundo. Quatro anos depois, voltou para a edição de 30 anos do festival, em 20 de setembro de 2015.
Em 2026, porém, havia uma diferença fundamental.
Não era apenas mais uma passagem pelo festival.
Era o retorno de um artista que havia encerrado sua grande turnê mundial.
Ao anunciar a participação, Elton explicou que não havia conseguido levar a Farewell Yellow Brick Road à América do Sul e que aceitou imediatamente o convite do Rock in Rio.
O festival, portanto, tornou-se uma espécie de ponte.
Entre o artista que se despedia das grandes turnês e o público que ainda não estava preparado para se despedir dele.
A curadoria que escolhe mais do que um artista
É aqui que entra uma questão interessante sobre festivais como o Rock in Rio.
Quando uma curadoria coloca Elton John em uma noite que também reúne nomes como Gilberto Gil, Jon Batiste, Luísa Sonza com Roberto Menescal, Péricles e Laufey, ela não está simplesmente organizando uma lista de shows.
Está construindo uma experiência de escuta entre diferentes tempos da música.
Naquela noite, havia artistas de gerações, linguagens e territórios diferentes. Gilberto Gil carregava a memória da Tropicália, da MPB e de décadas da música brasileira. Roberto Menescal representava uma linhagem histórica da bossa nova. Jon Batiste trazia o jazz, o gospel e a cultura musical norte-americana para dentro do presente. Laufey conectava jazz, bossa nova e pop contemporâneo.
E então chegava Elton John.
É justamente nesses encontros que um festival pode funcionar como um grande arquivo vivo da música.
A curadoria seleciona artistas, mas o público leva para casa histórias.
Elton John e a memória afetiva brasileira
Talvez nenhuma música represente melhor essa relação do que "Skyline Pigeon".
Elton fez questão de apresentar a canção no Rock in Rio 2026 e comentou que ela é especialmente popular no Brasil. A música ganhou aqui uma vida própria depois de integrar a trilha da novela Carinhoso, em 1973.
Esse é um fenômeno cultural fascinante.
Uma canção pode ter uma trajetória internacional e, ao mesmo tempo, adquirir uma identidade particular em determinado país.
Para uma geração brasileira, ouvir "Skyline Pigeon" não significa apenas ouvir Elton John.
Significa lembrar da televisão, das novelas, da casa dos pais ou dos avós, do rádio, dos discos, de uma determinada época do Brasil.
É aí que a música deixa de ser apenas repertório e se transforma em memória.

Um show de 24 canções e 2h15
Elton John entrou no palco às 23h e entregou um espetáculo de aproximadamente duas horas e quinze minutos, com 24 músicas no repertório.
A sequência percorreu diferentes períodos de sua carreira:
- "Bennie and the Jets"
- "I Guess That's Why They Call It the Blues"
- "Philadelphia Freedom"
- "Tiny Dancer"
- "Sacrifice"
- "Rocket Man"
- "Levon"
- "Sorry Seems to Be the Hardest Word"
- "Someone Saved My Life Tonight"
- "Candle in the Wind"
- "Goodbye Yellow Brick Road"
- "Don't Let the Sun Go Down on Me"
- "Crocodile Rock"
- "I'm Still Standing"
- "Skyline Pigeon"
- "Your Song"
O encerramento com "Your Song" parecia inevitável, e justamente por isso funcionou.
Não havia necessidade de uma surpresa.
A surpresa era perceber que aquelas músicas, muitas compostas há mais de 50 anos, ainda tinham capacidade de fazer uma multidão cantar junto.
A voz muda. A canção permanece.
Um dos aspectos mais interessantes da apresentação de 2026 foi justamente sua humanidade.
Elton John já não possui a mesma voz de seus anos mais intensos de carreira. Sua idade e suas condições físicas são perceptíveis. A imprensa observou limitações vocais e físicas durante o espetáculo, sem que isso diminuísse a força da apresentação.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais o show tenha sido tão emocionante.
Não se tratava de fingir que o tempo não passou.
Tratava-se de mostrar que uma obra pode sobreviver ao tempo sem precisar escondê-lo.
- A música estava ali.
- O piano estava ali.
- A banda estava ali.
- E o público também.

Elton John nas redes sociais: da comoção aos memes
Como era esperado de um espetáculo desse tamanho, o show ultrapassou rapidamente os limites da Cidade do Rock.
Durante e depois da apresentação, Elton John esteve entre os assuntos mais comentados no X, antigo Twitter. Os comentários misturaram emoção, elogios, nostalgia e o humor característico das redes brasileiras.
A repercussão também atravessou fronteiras.
Veículos internacionais destacaram o retorno ao Brasil, o caráter nostálgico do repertório e especialmente a escolha de "Skyline Pigeon". O show foi repercutido por veículos estrangeiros como The Telegraph, The Canberra Times, Rolling Stone e Consequence.
É interessante observar como a experiência se divide em duas camadas.
Na Cidade do Rock, milhares de pessoas viveram o acontecimento presencialmente.
Nas redes, milhões puderam participar da memória coletiva por meio de vídeos, comentários, memes, fotografias e trechos das músicas.
O show terminou no palco. A conversa continuou na internet.
O que Elton John deixa para a música
Elton John não pode ser reduzido aos óculos extravagantes, aos figurinos, ao piano ou aos grandes sucessos.
Sua importância está também na capacidade de ter construído uma ponte entre diferentes tradições musicais.
O músico formado na tradição clássica dialogou com o blues. O compositor de canções populares incorporou elementos do gospel e do soul. O astro do rock transformou o piano em instrumento central de uma música de massa. O artista teatral tornou-se também compositor de cinema e teatro.
Sua obra chegou a mais de 327 milhões de discos vendidos, segundo sua biografia oficial, e soma milhares de apresentações em mais de 80 países.
Além da música popular, Elton compôs para obras como O Rei Leão, Aida e Billy Elliot, ampliando sua presença para o cinema e o teatro musical.
Em 2024, também entrou para o grupo de vencedores do EGOT, depois de receber seu primeiro Emmy pelo especial Elton John Live: Farewell from Dodger Stadium.
Uma noite que não foi apenas sobre Elton John
Talvez a maior força do Rock in Rio 2026 tenha sido transformar um show de Elton John em algo maior do que o próprio artista.
A noite reuniu memórias de diferentes gerações.
- Havia quem tivesse comprado o primeiro disco de Elton John.
- Havia quem tivesse conhecido "Your Song" no rádio.
- Havia quem lembrasse de "Skyline Pigeon" pela televisão.
- Havia quem tivesse visto o artista em 1995, 2009, 2011, 2015 ou 2017.
- E havia uma nova geração conhecendo tudo aquilo pela primeira vez.
É isso que acontece quando a música atravessa o tempo.
Nas apresentações de grandes festivais, especialmente quando a curadoria aposta em artistas com uma obra tão extensa, não entram no palco apenas músicas.
- Entram histórias.
- Entram referências.
- Entram paisagens.
- Entram pessoas.
Entram os discos que alguém ouviu na adolescência, as novelas que uma família acompanhou, as festas, os amores, as viagens, as perdas e os momentos felizes.
A voz de Elton John pode mudar com o tempo.
Seu corpo pode exigir outro ritmo.
Os grandes shows podem se tornar exceções.
Mas quando o piano começa a tocar "Your Song", alguma coisa permanece exatamente no lugar.
A canção encontra novamente quem a escuta.
E talvez seja essa a verdadeira razão pela qual artistas como Elton John continuam sendo escolhidos pelos grandes festivais.
Não apenas porque ainda são capazes de fazer um grande espetáculo.
Mas porque carregam consigo uma parte da história de quem está diante do palco.
Tem um lançamento, um show marcado ou um projeto pra contar? A Groove News é o espaço pra apresentar trabalho.


